A viagem recomeça!

Quero agradecer, de verdade, todos que me escreveram via e-mail, orkut, facebook, blog. Não houve um comentário que tenha lido e que não tenha me deixado emocionado, com a certeza que em momentos difíceis o que ameniza a dor são as palavras de apoio. Com a ajuda de vocês e muita conversa com meus irmãos – pois em um momento desses uma decisão dessas não se toma sozinho – fomos amadurecendo, respeitando o meu estado emocional. Decidimos que estou onde minha mãe sempre sonhou que estivesse, e realizar esse meu sonho é como realizar os sonhos dela. Por isso, optamos em continuar, com muita superação e motivados a cada dia pelos e-mails de amigos, familiares e até mesmo de desconhecidos. Assim, vamos vivendo a cada dia e tendo provas que a vida sempre continua: não importa onde estamos, o importante é viver!

Prometo aqui, quando voltar para o Brasil, reproduzir com carinho, na cozinha do Duetto (www.restauranteduetto.com), todas as receitas que aprendi ao longo da viagem, detalhando o passo a passo com fotos e tudo mais. Algumas um pouco raras e outras muito interessantes, como a crepe a base de cerveja pilsen, as folhas de arroz negro ou até mesmo o caviar de manga. A cada semana postarei uma receita nova e estarei sempre disponível para tirar quaisquer dúvidas!

No dia 5 de agosto acordamos às 8h00, depois de uma noite mal dormida, pois estávamos cheio de saudades e empolgados com a chegada da Dani.  Como é bom rever aquele sorriso! Às 9h30, pontualmente, estávamos na porta do hotel esperando a loja de aluguel de carros trazer nosso “companheiro” para ir até o aeroporto de Barcelona. Nesse momento, houve um pequeno desencontro: já eram 10h30 e ainda nem sinal do nosso carro. Foi quando o telefone tocou e era um rapaz perguntando onde eu me encontrava, pois a moça da locadora já estava esperando há quase uma hora na recepção do hotel para me entregar as chaves do carro. Eu, infelizmente, estava do lado de fora esperando por ela. Contratempo resolvido, marchamos rumo ao aeroporto um pouco apressados, pois o avião da Dani estava previsto para aterrissar às 11h00 e não queria perder esse momento por nada: vê-la sair pela porta de desembarque onde todos lhe vêem, mas você não consegue ver ninguém. A não ser que, entre os que estejam lhe esperando, haja alguém um pouco escandaloso.

Era quase meio dia e estávamos bem próximos de chegar, quando avistamos uma placa: “Terminal 1 à direita e Terminal 2 em frente”. Pensamos: “- Fu…”! Mas como somos sempre otimistas, também pensamos “temos 50% de acertar e 50% de errar”. Assim, viramos à direita, estacionamos o carro e fomos em direção à área de desembarque, onde pelos meus cálculos a Dani já devia estar saindo e então aquele sorriso que esperávamos já teria se transformado em outra coisa que é melhor nem citar. Graças a Deus – ou à Ibéria – as malas foram trocadas e estavam em outro vôo que estava vindo de Madrid também e chegaria meia hora depois. Com isso, ficamos ali parados, esperando com aquela cara de que estávamos ali desde às 11h30.

Então o momento veio, ela saiu e, meus amigos, foi só alegria, abraços, beijos e apertões. Em alguns momentos a distância é ruim, mas também ajuda a valorizar muitas coisas que temos e, às vezes, esquecemos ou não damos mais valor!

Depois de nos perdermos por Barcelona em busca do hotel escondido, e também com nosso GPS apresentando algumas falhas na rota, entrando na contra mão, em ruas sem saídas e entre outras coisas, chegamos ao nosso destino. Malas guardadas e carro estacionado (missão que não é fácil em grande cidades ou pior ainda em Florença, que narrarei mais para frente), fomos comer uma paella de mariscos em um lugar indicado por meu amigo Xavi, de Barcelona, que realmente estava fantástica. Vamos reproduzi-la aí no Brasil com todas suas técnicas e desmistificar os segredos para fazer uma boa paella e quem sabe torná-la um prato comum em sua casa nos dias de domingo.

Nosso GPS

Dormimos cedo essa noite, pois teríamos apenas um dia para apresentar a cidade à Dani. No dia seguinte, acordamos cedinho e já colocamos o pé nas ruas, pois além de conhecer melhor a cidade caminhando por ela, se locomover por Barcelona de metrô é muito mais fácil e prático que de carro.

Nossa primeira parada foi tomar um café rápido em uma “lanchonete”. Pedimos um “bocadillo” (são lanches servidos em baguetes) de jamón e um de chistorra (linguiça de carne de porco condimentada a base de páprica doce). De lá, fomos em direção ao parque de Galdi, que possui uma curiosidade: um de seus acessos fica uma rua muito íngreme e, por isso, possui escadas rolantes enormes, o que dá um toque todo especial antes mesmo de chegar ao parque. É mesmo um lugar encantador. Suas linhas e formatos chegam a dar nó no cérebro e não é difícil ver pessoas inclinando a cabeça na tentativa de compreender melhor o “traçado” de suas colunas.


A escada rolante

Parque de Galdi

Colunas do parque

No topo do parque

Com o tempo justo decidimos fazer uma rota e conhecer alguns pontos e um restaurante indicados pelo meu amigo Xavi. Saímos pela entrada principal do parque e fomos em direção à Sagrada Família, projetada por Galdi e que até hoje está em construção. Seu término está previsto para 2013, o que dizem ser impossível, pois reza a lenda que todas as noites, por ser muito antiga, algumas partes se desfazem e, assim, sempre há o que ser refeito…

Sagrada Família

Seguimos em direção à Barceloneta, um bairro bem badalado e agitado. Lá ficam as praias de Barcelona. Mas antes, no caminho entre a Sagrada Família e Barceloneta, paramos para almoçar no restaurante indicado por nosso amigo. Pedimos de entrada um ravioli recheado com frutos do mar servido com molho branco (bechamel) e molho romanesco e também uma salada verde e de cenoura com pedaços de camarão, caranguejo e mexilhões servidos com vinagrete de gengibre.

Ravioli recheado com frutos do mar

Salada de frutos do mar

De prato principal pedimos um salmão grelhado acompanhado de purê de batatas, aspargos salteados e salada verde, e também um atum semigrelhado acompanhado com purê de batatas e abacate empanado no gergelim branco. Todos os pratos estavam muito apetitosos, mas o atum semigrelhado estava realmente saboroso. Embora pareça um pouco estranho usar abacate como acompanhamento, isso fez com que o prato ganhasse um toque diferenciado e surpreendente.

Salmão grelhado

Atum semigrelhado

Retomamos o rumo de Barceloneta felizes pela refeição em um bom lugar, pois comer é desfrutar de um prazer raro!

Quando estávamos quase chegando às praias de Barceloneta, lembrei que meu amigo comentou que há um homem que caminha pelado pelas ruas de Barcelona. Pega metrô, ônibus, vai ao mercado, tudo nú. Comecei a comentar com a Dani sobre o “peladão” de Barcelona e ela olhava para mim e dizia: ” – Isso deve ser lenda!”, e eu ” -Meu amigo daqui disse que já viu ele no metrô e que ele anda normalmente, como se estivesse com roupa”. E ela: ” – Não acredito muito!”. Nisso olhei para frente e disse: “- Se não acredita, olha para frente, então!”. Nesse momento passava pela gente o famoso “peladão” de Barcelona. Só deu tempo de discretamente levantar a câmera e registrar a cena, o que não precisava ser tão discreto, pois ao passar por um grupo de turistas japoneses, ele foi bombardeado por flashes. Mas continuou ali, tranquilo, em sua caminhada vespertina!

A lenda

Depois de conhecer uma das lendas vivas da cidade, fomos tentar arrumar um lugar nas areias de Barcelona, para estirar nossas toalhas e curtir um pouco o som do mar. Mas, ao invés disso, quem já esteve em Barcelona deve recordar as incansáveis vozes de homens vendendo cerveja na praia: “- Cerveza, beer very cold, very sexy!”. Parece mentira, mas ficamos ali olhando e são muitos, muitos. Como todos que estão curtindo um dia de praia ficam deitados ou sentados em suas toalhas, o que se pode ver é um andar incansável de vendedores de cerveja de um lado para o outro da praia.

Olhamos o relógio e resolvemos começar o caminho de volta ao hotel, mas dessa vez iríamos de metrô. Antes de chegar à estação de Barceloneta, encontramos um grupo de salsa que reunia centenas de pessoas à sua volta. Ficamos ali curtindo um pouco sua música, esperando o dia acabar para então voltar à Platja D´Aro e nos preparar para começar nosso tour até Roma!

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Viagem interrompida

Hoje mal comecei a escrever e tenho pela frente o texto mais difícil de toda a minha  vida. O pouco que convivi com essa doença foi o suficiente para perceber que, com ela,  aprendemos a viver  um dia após o outro. Uma doença feita de pequenas vitórias e grandes derrotas, mas em alguns casos o inimigo nos pega de surpresa e não nos dá tempo nem de sequer levantar o escudo para nos defender. Mas o que ele não sabe é que na alma e nos nossos sonhos não pode tocar, somos imortais e eternos. Não sabe também que você vai continuar viva em  cada um de nossos corações, que são alimentados por esses seus sonhos, por nossos sonhos, os quais eu aprendi com você, minha mãe. E, se hoje corro atrás de meus sonhos, é porque com você aprendi a sonhar e ser feliz com as coisas simples da vida. Seu corpo ficou pequeno para uma alma tão grande que ensinou e educou muitos seres, e deixou aqui três frutos, três irmãos, que juntos diariamente vão poder sentir você guiando e tocando nossas almas, como sempre fez!

Não me despeço aqui, digo um até logo e, quando nos encontrarmos de novo, sou eu que vou estar ansioso para escutar suas novas aventuras.

Beijos do seu filho que lhe ama de paixão.

Xú!!!

“Sonhar em dias felizes nos impulsiona ainda mais e em momentos difíceis nos faz continuar caminhando! Sonhe sempre…”

- André Palandi -

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Desafio: Casamento para 300 pessoas

Hoje o dia começa meio agitado para todos, pois temos pela frente um casamento para 300 convidados. Para um evento desse porte, a cozinha já começa os preparos uma semana antes, pois temos que fechar a lista de compras e começar a preparar algumas produções que exigem mais tempo, como o molho que vai ser servido no prato principal – o molho rôti. A base desse molho é a cocção lenta de ossos de boi durante um dia inteiro, depois juntamos alguns “temperos”, deixando apurar por mais 24 horas, e só então coamos para deixar reduzir até 1/3 do seu volume inicial. Tudo isso demanda muita paciência, cuidado e tempo, obtendo assim o máximo de sabor e aromas, potencializados pela redução lenta!

Um dia antes da festa chega à cozinha não mais um exército, e sim um batalhão, uma infantaria toda de bogavantes – mais de 150 bichos, ou seja, mais de 300 “patas” ou “pinças” para limpar. Nesse momento, com mais de 500 litros de água fervendo, distribuídos em dez caldeirões, começa a entrar um a um da equipe e a cozinha vira um verdadeiro matadouro de bogavantes, ritual do qual não participo. Tenho em meu contrato aqui uma cláusula segundo a qual não mato nenhum ser vivo, só manipulo animais mortos. Pode parecer estranho, mas, como diz o velho ditado, cada louco com a sua maluquice!
Esse trabalho demanda a ajuda de quase todo o contingente da cozinha, pois retirar a carne delicada desse tipo de lagosta de dentro de suas cascas rígidas exige tempo, paciência e muito cuidado para não romper a carne!
Paralelamente começa o pré-preparo de algumas guarnições para o evento, o que faz um simples purê de batatas se tornar complicado quando reproduzido para 300 pessoas. Nessa hora conta muito a experiência, pois hoje em dia, com as cozinhas cada vez mais com o quadro de funcionários enxuto, temos que produzir a quantidade quase certa de purê. Não pode faltar nem sobrar muito, pois essa sobra, além de tudo, se traduz em tempo perdido de mão de obra e em uma coisa que não terá utilidade!
Com o casamento marcado para começar às 19h00, chegamos à cozinha às 10 horas da manhã, tomamos um rápido café e apenas cinco minutos depois já estamos reunidos com o chef para acertar as partidas e os chefs de partida (ou seja, acertar as equipes e o que cada uma será responsável por produzir). Saímos responsáveis pela partida de carne – isso mesmo, do prato principal –, e sob nossos olhos estarão juntos Xavi (de Barcelona), Irakli (da Geórgia) e Selin (da Romênia), uma equipe bem diversificada. Fazemos um rápido checklist e designamos o que cada um terá que produzir e, se Deus quiser, ficar pronto até as 18h00 – nosso horário-limite.


Nosso prato será um medalhão de filé-mignon grelhado com molho rôti e acompanhado com tomate-cereja flambado com cachaça
(tivemos que dar um toque brasileiro!), cebola pérola caramelizada e cones recheados com jamón ibérico e crema defumada.

Sempre que se trata de um prato quente, na hora do serviço, é algo mais delicado, pois temos que montar e finalizar os 300 pratos em no máximo 10 minutos. Com isso teremos que organizar uma sequência de montagem muito otimizada e, para tanto, dividimos a área do passe em três partes e cada uma será responsável por soltar 100 pratos. Cada pessoa de uma dessas três partes terá uma função específica e, antes de citar a função de cada um, não posso me esquecer do nosso principal funcionário, sem o qual nosso trabalho seria bem mais complicado! Um forno combinado, onde podemos colocar 150 pratos já montados, com as guarnições e as proteínas inclusive, e que nos avisa quando o medalhão está ao ponto para menos, quando está ao ponto ou ao ponto para mais. Devo confessar que não confiei muito de início, mas fiquei espantado com o resultado: se tiver uma guarnição crocante ela continua crocante (” – Dani, podíamos ter um desses em vez de filhos, o que acha? Além de tudo, ele se limpa sozinho!”).

O forno

Com essa grande ajuda definimos a função de cada um na hora de soltar os pratos:
Xavi – responsável por tirar os pratos do forno (afinal são 300 pratos!) e colocar na bancada do passe (100 por área). O bom é que já estarão com o medalhão e sua guarnição.
Nós - responsáveis por colocar o molho rôti sobre a carne, o que, ao final, nos deixará sem braços.
Irakli - responsável por finalizar o prato com salsinha picada.
Selin - responsável por limpar qualquer eventual gota de molho que venha a cair em um lugar não desejado do prato.
Tudo definido na teoria e torcendo para que na prática funcione certinho, vamos marcar na grelha os 300 pedaços de filé-mignon para que na hora do serviço só sejam finalizados no forno, tarefa que nos demanda mais de uma hora. Nesse momento, o chef passa em nossa praça e nos informa que estamos adiantados – e realmente estávamos, pois eram quase 17h30 e já estávamos montando os pratos com suas guarnições.

A finalização do filet mignon

Com nosso pré-preparo feito e checklist conferido umas 3 vezes, fomos ajudar a equipe responsável pela entrada de bogavante servido sobre purê de batatas trufado e guacamole, finalizados com broto de alfafa e azeite extravirgem de Taragona.

Bogavantes

Tudo checado, começamos a servir a entrada às 20h30, a qual tinha o pré-preparo mais puxado, porém, em compensação, a hora do serviço mais fácil, por ser um prato servido frio e por isso já estar praticamente montado, só faltando ser finalizado com o azeite e a flor de sal. Às 21h15 chega a nossa hora!!! Um carro com parte dos pratos no forno começa a ser tirado e em seguida a outra remessa já é colocada. Os primeiros pratos são finalizados e retirados pelos garçons, quando escutamos tudo o que menos se quer ouvir nesse momento: o som de vários pratos se partindo ao tocar o chão. De costas para o estrondo, meu primeiro pensamento foi: “– Que não sejam muitos”, e por sorte foram só duas bandejas com um total de 10 pratos, mas que nos fariam falta. Assim passamos nossa função para o Albert (catalão e confeiteiro do hotel) e fomos cuidar de grelhar mais 10 medalhões, pois as guarnições já tínhamos prontas justamente para eventuais imprevistos. Assim que os últimos pratos saíram, chegamos com os 10 que faltavam.
Olhamos no relógio e tinham se passado 13 minutos desde que o primeiro prato foi servido. Excedemos 3 minutos, mas o importante é que podia ter sido pior!
Damos uma breve respirada, pois logo a confeitaria chegaria com suas instruções, pré-preparo e 300 taças de martini.
Às 22h05 começamos a rechear as taças de martini com sorvete de limão e frozen de menta finalizadas com frutos vermelhos e, dessa vez, sem nenhuma taça atirada ao solo.


Sobremesa

Tudo ocorreu dentro do tempo e a partir desse momento o furacão começava a terminar. Era hora de recolher e arrumar tudo, pois no dia seguinte teríamos mais de 100 pessoas nos esperando no show cook!

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Um dia de show cook

São seis horas da manhã e o chef nos espera na portaria do hotel. De lá vamos ao centro de fornecedores de pescados, em Palámos, selecionar os peixes e frutos do mar que ofereceremos ao longo da semana no show cook. Todos estavam pensando que seria sempre assim: subir na uma moto e sair por aí, só comendo e se preocupando onde dormir? Não, não. Vamos colocar nossos uniformes, domas, sapatos de segurança, calça quadriculada, avental – e claro, o que não pode faltar – nossos chapéus de chef e entrar na rotina alucinante de um cozinheiro na alta temporada catalã.

Chegamos ao centro de fornecedores às 6h15, enxergando tudo com um olho só, pois o outro teimava em não abrir, mas isso não durou muito. Bastou se deparar com aquela infinidade de produtos e já estavam ambos olhos bem abertos e encantados com a diversidade à nossa frente: peixes frescos de cor vibrante e olhos negros, camarões de Palámos com sua cor vermelha escura e de cabeça azulada, caracóis do mar ainda vivos e, mais vivas que eles, as lagostas ainda fazendo o movimento de fuga como em uma última tentativa de voltar ao mar!

Fornecedores acertados e produtos escolhidos para a semana, voltamos ao hotel, pois às 8 horas da manhã começam a chegar as primeiras entregas e é esse primeiro dia de trabalho no show cook que vamos vivenciar aqui!

Recebemos uma encomenda de merluza (3), galera (1), uma espécie de camarão que possui duas curiosidades. A primeira são os dois pontos negros na calda, que criam a ilusão de que ali é a sua cabeça, enganando assim seus predadores. A outra é que para comer esse animal tem que tomar cuidado, pois ele possui “espinhos”, todos voltados para um lado só, ou seja, se comermos no sentido deles não fazem dano algum, mas se invertermos, eles grudam nos lábios e é complicado de tirar sem fazer um bom estrago. Recebemos também camarões de Palámos (2), os caracóis de mar (4) com suas conchas fortes e estilosas, sépias – uma espécie de lula com olhar sério e observador, um atum pesando mais de 5 quilos, um turbot tão grande que ocuparia todo o peito de um homem adulto e que também nos fornece uma iguaria muito especial: suas ovas que, se retiradas com cuidado e empanadas com ovo e farinha de trigo e depois fritas, possuem um sabor suave e de textura cremosa muito apreciada por aqui. Por último chegou nosso exército de bogavantes ,com seus cascos vermelhos, acompanhados por uma das mais belas lagostas que já vimos, pesando mais de 3,5 quilos e custando por volta de seus 60 euros – a Lagosta de “El Port de la Selva”. E, com ela fechamos nossos pedidos de hoje!


O atum

O turbot

As ovas do turbot

Bogavantes

A lagosta


Com todos os nossos pescados desenvisserados, desescamados e semi-limpos partimos para as guarnições, pois já são quase 11h00 e tudo tem que estar pronto até às 13h30, quando começam a chegar os primeiros clientes ao show cook.

As guarnições de hoje serão duas: “canelones de tartar de salmão com molho teriaki e pirulitos de parmesão” e “crepe a base de cerveja pilsen, recheados com salteados de cogumelos frescos aromatizados com azeite trufado”. Para elaborar essa segunda guarnição recebemos cincos tipos de cogumelos, cada um com suas texturas e aromas e nomes curiosos também como a “Trombeta de la Viúva”.

Trombeta de la Viúva (primeira imagem) e os outros cogumelos

Agora estamos com tudo pronto para começar a montar a partida do show cook. Antes, porém, fazemos uma pequena pausa para um rápido almoço. Não me perguntem o que comemos, pois só paramos para matar o que estava nos matando – se era uma carne ou um pescado não deu nem tempo para perceber. O chef já estava nos chamando para passar ao maitre o que havíamos preparado de guarnição e as opções de pescados para os clientes e ainda teríamos que fechar as harmonizações com dois ou três tipos de vinho. Detalhes resolvidos, o tempo começa a se transformar em nosso maior inimigo, pois já passava de uma hora da tarde e ainda não tínhamos as chapas ligadas e nem mesmo os insumos levados para a nossa cozinha. Para a nossa sorte, nesse momento, chega o outro responsável, nos nossos dias de folga, pelo show cook e nos ajuda a deixar tudo minuciosamente em seus devidos lugares, sem poder faltar sequer as tachinhas para prender as comandas com os pedidos. Isso tudo para que, quando o primeiro cliente chegar, tenha a sensação que estamos ali faz tempo, tranquilos, relaxados e com um belo sorriso no rosto, sem muito que fazer, somente à sua espera e agora sim, dando graças à Deus, por ter um pouco de trabalho!

Durante o movimento tudo correu muito bem, com alguns imprevistos mas nada fora do normal. Nosso trabalho foi se desenvolvendo, indicando peixes, aconselhando uma das duas guarnições e é isso o que mais me encanta em trabalhar num show cook: o contato direto com o cliente, pois observamos de imediato as sensações que ele sente ao se deparar com os primeiros aromas presentes naquele prato. É como plantar e já colher, sem esperar amadurecer e, se seu trabalho foi bem feito, colher bons frutos, mesmo em pouco tempo!

As guarnições

Finalizando o prato

Os ponteiros vão se aproximando das 18h00 e o último cliente está pagando a conta. Nessa hora começamos a recolher e a limpar tudo o que é responsabilidade nossa. Com isso já adiantamos um pouco o trabalho do dia seguinte, deixando os utensílios e condimentos em seus devidos lugares, como se, a qualquer momento ou de última hora, fosse preciso usá-los.

Saímos um pouco cansados, mas com o peito cheio e a sensação de missão cumprida – e, o melhor de tudo, bem feita. Ao chegar ao escritório do chef para deixar o walk-talk, que usamos durante o serviço para nos comunicar com a cozinha central, bem ali no cantinho vejo um livro com suas páginas amarelas e, sem pensar muito, o puxo e me deparo com o que quase considero uma relíquia – um livro escrito em 1997 por um jovem chef de cozinha que tinha como proposta da época revolucionar o mundo da gastronomia em que vivia. Ao percorrer um pouco suas páginas, percebi que nem ele achava que iria chegar tão longe. Eleito 5 vezes consecutivas o melhor chef do mundo, esse quase senhor nos tempos atuais abria, com suas ideias revolucionárias, caminhos que muitos jovens chefs hoje percorrem! Vou colocar aqui um trechinho do livro que li enquanto o sol ia descansar depois de um dia longo de trabalho e a lua começava o seu turno!


“À primeira hora da tarde, uma pessoa apaixonada pela cozinha criativa atravessa a porta e abandona o restaurante. Em seu paladar, em sua memória, o sabor intenso do último sorvo de café ultrapassa a recordação de uma sucessão de gostos e texturas, convive com uma série de sensações dificilmente catalogadas”.

Ferran Adrià – Los secredos de el Bulli – 1997

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Aventura na scooter e a praia de nudismo

Segunda e terça-feira são nossos dias de folga e vamos aproveitá-los para começar a explorar a Costa Brava. Para isso alugamos nossa fiel companheira – uma Scooter 125cc – e, junto com nosso outro vital escudeiro – o mapa da Costa Brava –, vamos subir até a França, percorrendo estradas que, se fosse possível, quase passam dentro do Mediterrâneo, proporcionando paisagens mágicas. Juro tentar aqui transformar em palavras todas as sensações que senti ao longo dessa aventura, as quais guardarei para o resto da vida. Por isso, quando subirmos na moto, vamos tranquilos e sossegados, pois não cairemos na estrada para ganhar tempo, e sim para desfrutar dele.



Meus companheiros de viagem

Nosso dia começa às sete horas da manhã. Temos que passar por dois “pueblos” (cidades pequenas) depois do nosso para chegar à loja que aluga carros e motos (– “Dani, fica tranquila que já reservei o carro para ir buscar você quando chegar; e não, não… não passei no cartão”). Ah, sim, para chegar a Palafrugell, tivemos que chamar um táxi e, como bons brasileiros que somos, tentamos negociar um preço mais justo para nós e para ele. Infelizmente só foi mais justo para ele.

Com a moto alugada – e paga – começamos a traçar nossa rota, saindo da loja e andando uns 500 metros sem pensar em nada, só sentindo o vento em nosso rosto, carregados de expectativas. Paramos em uma esquina em Palafrugell e começamos a olhar e observar por quais “pueblos” teríamos que passar para chegar à divisa com a França, quando um deles nos chamou a atenção: Cataqués. Por que não ir até lá receber um toque de inspiração de Dalí? Pois bem, a partir desse ponto nossa viagem começa a tomar mais forma, com a decisão de chegar a Cataqués para jantar e descansar por lá.

Olhando mais uma vez no mapa, nosso próximo “pueblo” foi Pals, cidade pequena, como todas em que vamos passar, mas que possui um dos “cascos antigos” mais charmosos da região, com suas ruas estreitas, casas de pedras grudadas umas nas outras e sustentadas por arcos centenários. Subimos até o topo para conhecer sua igreja e também tirar algumas fotos. Com a proteção divina, fomos ao encontro de nossa fiel companheira e de nosso vital escudeiro checar qual o próximo “pueblo” a passar por debaixo de nossas rodas.


Ruas de Pals

Torroella de Montgrí, “pueblo” que iríamos conhecer só de passagem, decidiu fazer com que ficássemos quase duas horas nele, pois, ao passar pelo pé de suas montanhas, avistamos lá no topo, bem pequenininho, um castelo. Nesse instante a curiosidade e o desejo de explorar vieram avassaladores. Deixamos nossa amiga na base do morro e seguimos a pé. Dois terços da trilha foram tranquilos, mas, quanto mais nos aproximávamos do “El Castillo de Montgrí”, mais íngreme a trilha ia ficando e mais o solo ia se modificando, do chão de terra batida para pedroso, tendo muitas vezes que ajudar com as mãos a impulsionar para o próximo obstáculo. Depois de 40 minutos de subida, chegamos aos pés do castelo e descobrimos que nunca chegou a ser terminado. Ele foi construído pelo Rei Jaime II para controlar o conflito entre dois condes na época de 1294 e se tornou o símbolo da região nos dias atuais – e nos proporcionou uma das mais belas vistas da viagem.

El Castillo de Montgrí


Pernas um pouco doloridas, mas felizes por reencontrar os velhos amigos aos pés da montanha, seguimos em direção a L’Escala. Olhamos no relógio e vimos que passava do meio-dia… já era hora de provar o que a região tinha a oferecer. Chegamos a L’Escala em busca de um restaurante, mas antes disso não deixamos de nos surpreender com suas praias pequenas e águas translúcidas e ruas que pareciam terminar dentro do Mediterrâneo.

L’Escala

Encontramos nas ruas dessa cidadezinha costeira um simpático casal de idade, que, percebendo nossa indecisão de aonde ir, veio em nosso socorro e nos indicou o “La Palmera”. Pena que não os encontramos outra vez para agradecer, pois nosso prato de entrada foi “Caracoles de L’Àvia Quimeta con Ali y Oli”, mais conhecido por nós como escargot, de sabor suave e de textura rara, que ganham um toque todo especial com a maionese de alho, um dos molhos mais utilizados por aqui. De prato principal pedimos uma parrilla de coelho acompanhada novamente com “ali y oli”, por isso não se assustem se, no decorrer da nossa estadia na Costa Brava, esse molho aparecer mais vezes! Realmente foi uma refeição bem típica e um tanto diferente para nós, mas saímos felizes por começarmos a compreender um pouco mais o tempero catalão.





Caracoles de L’Àvia Quimeta con Ali y Oli

Comendo os caracoles

Parrila de coelho


Estava na hora de alimentarmos também nossa companheira. Saímos de L´Escala e fomos em direção ao Castelló d’ Empúries, parando na primeira “gasolinera” por que passamos e gastando a fortuna de 5 euros para completar o tanque. Antes disso, porém, pagamos um leve mico, pois não há frentistas aqui e apanhamos um pouquinho para fazer a bomba de gasolina funcionar e também para parar de funcionar. O bom é que os postos daqui possuem bem à mão aquelas areinhas para jogar no chão quando o tanque transborda. Mico à parte, voltamos para a estrada.


Prestando muita atenção nas placas ao longo do caminho, que, além de ajudar a chegar mais fácil ao nosso destino, informam qualquer ponto turístico por perto, visualizamos uma na saída de L´Escala com o escrito “EMPÚRIES – a cidade romana”. Não tivemos como não desviar um pouco da nossa rota para visitar esse sítio arqueológico enorme onde as ruínas parecem ganhar vida, podendo sentir as pessoas andando por suas ruas, as decisões no Fórum, os banhos coletivos, enfim, foi um mergulho incrível no passado.

Empúries


Ligando os motores outra vez, passamos direto por Castelló d´Empúries e seguimos em direção a Roses, uma cidade um pouco maior do que todas que passamos até agora. Ali nosso objetivo foi encontrar o mercado municipal, onde sempre há algo com que se surpreender, e em “El Mercat de Roses” não foi diferente. Havia uma infinidade de produtos: caracóis vivos, coelhos, carneiros inteiros, e claro que não poderia faltar uma diversidade enorme de “Jamón Ibérico”, um dos produtos mais típicos de toda a Espanha.

Coelhos


Sempre que vou a um mercado, dedico um tempo a mais à barraca de azeitonas, e assim foi no Mercat de Roses. Pedimos uma dica para a vendedora, entre as “n” opções de azeitonas, de qual gostava mais e ela indicou uma que era feita por eles mesmos, se recusando, mesmo depois de muita insistência nossa, a passar a receita, pois era segredo de família. Abrindo mão da receita, saímos do mercado para saborear essas iguarias. Havia nelas algo marcante, que dava um aroma todo especial e que dominava a boca por alguns segundos, sumindo logo depois e deixando um leve toque de alho e páprica doce nas últimas mordidas.

Azeitonas



Fazendo uma boquinha na praça


Ainda encantados com as azeitonas, avistamos uma placa informando que Cataqués estava a 14 km; teríamos que acelerar um pouco mais, pois já passavam das 18h00 e tínhamos que chegar ao nosso destino e ainda sair à procura de um lugar para dormir.
Percorridos quase 6 km desde La Roses, a estrada começou a mudar, ficando mais estreita e, contornando as montanhas, parecia nos levar ao seu topo, deixando as praias lá embaixo e nos proporcionando uma vista deslumbrante. Nessa hora os sentimentos de entusiasmo, excitação, alegria foram se misturando e, faltando apenas 4 km para chegar a Cataqués, passamos por uma placa pequena e não sei explicar, mas a curiosidade de desviar um pouco do caminho veio à tona. Entramos nessa “estradinha” que mal podiam passar dois carros, mas ainda de asfalto, e deparamos ao final com uma bifurcação, onde, seguindo na estrada asfaltada, dava em uma placa dizendo “Zona Militar – não passar” e, para a esquerda, uma estrada de terra, sem muita opção. Sem saber mesmo explicar por que, seguimos por essa estrada de terra e, depois de uns 10 minutos nela, surgiu à nossa esquerda uma trilha pequena na qual mal se podia passar com a moto. Resolvemos arriscar e, conforme íamos subindo, o horizonte ia se revelando à nossa frente e percebi que era um lugar mágico: todo o Mediterrâneo aos nossos olhos até onde podíamos enxergar, com algumas ilhas rochosas, praias desertas, onde o homem mal havia tocado. Nesse momento percebi que não sentia nada, nem alegria, nem felicidade… absolutamente nada. Estava simplesmente parado, admirado, deslumbrado e percebi que estava anestesiado! Em êxtase, literalmente.


Uma pequena parada…


Voltamos à estrada principal e enfim estávamos chegando a Cataqués, cidade aconchegante e encantadora, onde, depois de avistá-la pela primeira vez e percorrer suas ruas por alguns minutos, pensei: – “Morando em um lugar desses, até nós seríamos um Dalí”. Até parece, ou quem sabe? Brincadeiras à parte, tínhamos que achar um lugar para passar a noite, dormindo, claro. No primeiro hotel que entramos já havia uma placa “no rooms”, mas para a nossa sorte havia outro ao lado e, ao entrarmos, lemos “no hay habitaciones” – pelo menos a placa estava em espanhol. Perguntamos à recepcionista onde havia mais hotéis e ela nos indicou um hotel grande que era difícil estar lotado. Subimos em nossa companheira (a essa altura já tínhamos aposentado nosso vital companheiro) e seguimos em direção ao hotel. Chegando lá, nos deparamos com um 5 estrelas de frente para o mar e para a nossa sorte havia “habitaciones”. Ao me informar do preço, porém, quando dei por mim já estava em cima de nossa amiga, voltando e olhando algumas praias possíveis para passar a noite. Foi quando percebemos que o tanque estava vazio e achamos um casal de namorados que nos indicou onde havia um posto, para o qual seguimos, já meio conformados em dormir uma noite na praia. Agora já sabendo os truques para acionar e desacionar a bomba de gasolina, começamos a abastecer nossa amiga. Meio cabisbaixo, por acaso, levantei a cabeça e tudo brilhou em volta daquele letreiro: “Hostal – albergue estudantil”. Olhei para nossa amiga e pensei: – “TE AMO”. Entramos no hostal e havia uma placa “Full”, mas nem tudo estava perdido. O senhor que estava no balcão mordendo seu “montadito” – um aperitivo bem típico do qual falaremos mais em outra viagem que vamos fazer – nos informou que em um albergue a duas quadras havia quartos. Felizmente era verdade, fizemos nossa reserva e tudo estava mais tranquilo agora.

De banho tomado e sem a poeira da estrada, fomos em busca de algum lugar para comer, encontrando uma praça com vários restaurantes um ao lado do outro e uma coisa que acho muito legal aqui: quase todos têm o cardápio do lado de fora. Aproveitamos e passamos um a um olhando o que íamos comer. Cua4tro foi o escolhido e de entrada pedimos “Humus, caviar de berenjena y crema de pimientos” acompanhados por um pão sírio quente e macio (mais para a frente vou passar a receita a vocês, pois fiz questão de conhecer o cozinheiro, o qual foi muito gentil em me passá-la). Estávamos só na entrada e sinceramente não precisávamos de mais nada, mas as vieiras do prato principal foram espetaculares, marcadas na frigideira com uma manteiga levemente queimada e acompanhadas de purê de batata, finalizadas com azeite de sobrasalda e crocante de bacon, que quase fizeram eu largar a Dani e me casar com o cozinheiro! (Brincadeira!) De sobremesa pedimos um vinho doce “Pedro Ximénez Néctar” muito saboroso e de sabor marcante! Saímos do Cua4tro fechando o dia com chave de ouro e seguimos para nosso hostal para dormir e um novo dia começar!

Com todos os informativos à mão saímos do posto turístico às 9h00 e fomos em direção à estátua de Salvador Dalí receber um toque de inspiração. Depois conhecemos a casa onde viveu, um lugar modesto, mas que, se fosse uns 10 metros adiante, cairia no mar. Subimos em nossa “conselheira” rumo a um lugar indicado chamado “Cap de Creus” e, com certeza, se um dia passarem por aqui, não deixem de visitá-lo. Trata-se de um farol que fica em um dos extremos dessa península onde há o encontro das montanhas rochosas com o Mediterrâneo.
Seguimos em direção à França e, faltando alguns quilômetros antes de chegar à sua fronteira, encontramos um placar em que estava escrito “Terme de Colera”. Paramos a moto e seguimos por umas trilhas em direção ao mar e, ao chegarmos à praia, fomos surpreendidos: era uma praia de nudistas. Aí aconteceu uma coisa muito engraçada, pois todos me olhavam e comecei a ficar incomodado, resolvendo tirar a roupa também. Nunca pensei que estaria em um lugar que sem roupa iria incomodar menos as pessoas do que com roupa e esse pensamento me fez rir e ficar mais à vontade.

À caminho da praia nudista


Devidamente vestidos novamente, fomos ao encontro do nosso destino final: a fronteira! Sem mais surpresas chegamos ao nosso objetivo e, como já era tarde, voltaríamos à estrada, agora sim para ganhar tempo, porque tínhamos que trabalhar no dia seguinte pela manhã!


Memória

Dedico essa viagem à minha vó – dona Geny –, pois o que seria da minha base gastronômica sem os domingos, Dias das Mães e Natal? Da galinha com batatas e macarrão vermelho; do leitão à pururuca disputado a unhas e dentes por mim e pela tia Lú – pois a cabeça era toda do tio Sérgio; das encomendas de bolinhos caipira para descer para Ubatuba… o que seria das festas de aniversário sem o toque doce das suas balas de coco? Aliás, ficou me devendo a receita, mas um dia eu ainda pego com você. Só sei, vó, que aprendi com você desde o primeiro momento que a conheci e estou aprendendo até agora, pois vi que você levou a única coisa que podemos levar daqui: a gratidão de todos que conviveram com você.

Vó: Te Amo para todo o sempre, beijos e mais beijos do seu neto Xú!
Geny Costa
*14/03/1928
+04/07/2010

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O caminho até Platja d´Aro e a primeira experiência gastronômica!

Todos prontos?

Nossa jornada começa no dia 27 de junho de 2010. Primeira parada: o Aeroporto Internacional de Guarulhos, com destino a Platja d´Aro, um “pueblo” perto de Barcelona, cidadezinha costeira que na alta temporada recebe grande quantidade de turistas vindos de muitas partes da Europa. Nesse refúgio europeu está localizado o Hotel Park San Jorge, um 4 estrelas, no qual vou agregar a equipe de verão do Chef espanhol José Esteban, assumindo a partida de “Cook Show” – quiosque na parte externa do hotel, onde oferecemos peixes e frutos do mar frescos, muitas vezes vivos. Sendo assim, com a escolha do cliente do que comer, fazemos tudo diante dos seus olhos, desde limpar o peixe até a finalização do prato.

Para chegar aqui percorremos um longo caminho. O avião levantou voo às 15h30min e depois de mais de 10 horas de viagem chegamos a Madri para fazer a conexão para Barcelona. Primeira missão na Espanha: “passar pela imigração”. Apesar de estar armado até os dentes com todos os tipos de papéis possíveis e impossíveis, mesmo assim pintou um friozinho na barriga. Porém, foi tudo bem sossegado. Acho que o rapaz simpatizou comigo, pois não pediu nem metade dos papéis que eu possuía. No aeroporto de Barajas encontrei algumas curiosidades, como “ilhas” fechadas reservadas para “fumadores” – onde se entra com outros fumantes e se faz uma fumaça só. Nem precisa de cigarros.

Bilhete Madri-Barcelona


A “Zona de Fumadores”

Às 9h10min, horário local, já do dia 28, nosso avião levantou voo em direção a Barcelona. Foi uma viagem tranquila de quase uma hora e depois de fato entramos no país dos “Pinchos, Tapas y Mucho Más”. No decorrer da nossa estadia na Costa Brava, conheceremos melhor esses aperitivos muito comuns em qualquer bar ou restaurante espanhol.


Vista do avião

No aeroporto de Barcelona o desafio foi descobrir onde pegar um ônibus que nos levasse até Platja d´Aro. Para isso fui até o balcão de informações turísticas e de lá saí com mapas, rotas e horários de partida. Nosso ônibus saía da Estação Norte de Barcelona e para chegar lá tivemos que pegar um ônibus até a “Plaza Catalunya” e depois nos entender com a máquina de bilhete do metrô, para apenas uma parada, depois descer na “Arc de Triomf” e andar um quarteirão até a Estação Norte. O relógio marcou meio-dia e já estava chegando a hora da nossa primeira experiência gastronômica.

Estação Norte em Barcelona


Eu, nas ruas de Barcelona com 20 quilos de bagagem

Antes, porém, fomos garantir a passagem até nosso “pueblo”. Ticket no bolso marcado para as 14h30min, procuramos um restaurante para comer, desfrutar e colocar um pouco de tempero espanhol em nossa vida. Não pudemos ir muito longe, pois estávamos com 20 quilos de bagagem nas costas. Restaurante escolhido, optamos por algo bem típico: “calamares a la plancha al ajo” são como lulas salteadas em uma chapa quente, servidas com salsa de alho, e o melhor de tudo, são frescas, e ainda se pode sentir o gosto do mar.


Calamares a la plancha al ajo, minha primeira experiência gastronômica na Espanha

Infelizmente não houve tempo para a sobremesa, pois pela janela do restaurante vi que nosso ônibus estava prestes a partir. Saímos correndo do restaurante e quase esquecemos de pagar a conta. Sorte que o garçom nos lembrou, e – o mais importante – entramos a tempo no ônibus e uma hora depois chegamos a Platja d´Aro, nossa casa durante um mês. Aqui, descobriremos as curiosidades de uma “província” que possui seu próprio idioma, costumes curiosos, sendo alguns bem radicais – como não torcer pela Espanha na Copa do Mundo – e que, independente das diferenças, é uma terra muito rica em sabores.


E é atrás deles que vamos nós!

RECEITA:

“Calamares a la plancha al ajito” (Lulas com salsa de alho na chapa)

LOS CALAMARES

200 g de lula limpa

50 ml azeite extra virgem

Sal a gosto

Pimenta a gosto

SALSA DE ALHO

200 g de tomate sem pele, sem semente e em cubos pequenos

50 g de alho bem picados

50 g de cebola bem picadas

50 ml de azeite

Páprica picante a gosto

Sal e pimenta a gosto

Modo de preparo:

Salsa de alho

Em uma frigideira,  suar o alho até que comece a dourar. Mas cuidado para não dourar muito, pois amarga. Junte a cebola e em fogo baixo sue lentamente, coloque a páprica picante e logo em seguida coloque o tomate, deixando apurar em fogo baixo. Ajustar sal e pimenta.

Calamares

Em uma vasilha, temperar a lula com o sal e a pimenta, despejando o azeite sobre elas. Mexer bem. Em uma chapa bem quente ( ou uma panela), colocar as lulas deixando que doure, vire e doure o outro lado também. Coloque-as sobre uma travessa e despeje a salsa de alho. Leve ao forno pré aquecido à 180°C por dois minutos.

Retire e sirva com salada de folhas verdes ou simplesmente arroz branco, assim poderá sentir mais todos seus aromas e sabores. Para mim, que sou louco por alho e cebola, não tem nada mais agrádavel do que lulas do Mediterrâneo acompanhadas com uma salsa tão rica e, além de tudo, com um toque todo especial da culinária local.

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A viagem começa!

Sabores, texturas, aromas e muitas surpresas é o que pretendo encontrar nesta temporada de 2010 ao longo de quase toda a costa norte do Mediterrâneo. Convido você a fazer suas malas e embarcar comigo nesta nova aventura. Buscaremos novas ideias e culturas, conheceremos pessoas, algumas muito raras e outras nem tanto, mas que, com certeza, ajudarão a compor nossa trajetória nestes quase dois meses de viagem e descobertas, formando assim nosso diário de receitas, desde as mais tradicionais possíveis até as mais exóticas.

Começaremos nossa jornada em São Paulo e iremos diretamente para Barcelona, cidade eclética, sonho de consumo não só de muitos jovens, mas de todos que apreciam conhecer e vivenciar uma diversidade cultural muito grande, encontrando pessoas de todo o mundo em um só lugar, mas que conserva perfeitamente seu passado e tradições.


Barcelona

Vamos passar grande parte da nossa viagem na Costa Brava, povo de fama rude, mas muito apaixonado por sua terra e pelo seu principal ingrediente: “a vida marinha” – uma diversidade espantosa de peixes e frutos do mar. Não se espante, ao pedir um lagostim, que ainda consiga sentir um leve toque de sabor das águas do Mediterrâneo, porque o crustáceo provavelmente estava vivo antes de o garçom comandar seu pedido. Também não deixaremos de lado os produdos continentais como scargot, servido ao forno com páprica picante e azeites de fabricação limitada de “pueblos” de Tarragona.

Vista do hotel em Platja d’aro, Costa Brava

No dia 11 de agosto começaremos a contornar a costa norte do Mediterrâneo, saindo de Girona, uma cidade acolhedora com seu “casco” antigo muito bem preservado. Lá, no mês de maio acontece um dos festivais mais encantadores: “Temps de Flors” – onde casas tombadas pelo patrimônio histórico, que permanecem fechadas todo o ano, abrem suas portas enfeitadas com os mais diversos tipos de flores provenientes de toda parte do mundo.

Escadaria decorada com flores em Temps de Flors 2009

Intervenção de artista em Temps de Flors 2009

De Girona nosso destino final é Roma, na Itália, e depois voltar até o aeroporto de Barcelona no dia 21 de agosto. Nessa parte da viagem, que até então éramos vocês e eu, ganharemos um tempero todo especial, com a chegada de minha noiva e minha fonte de inspiração: Daniela. Prometo não relatar aqui muito nossas desavenças, mas sim desvendar cada quilômetro percorrido.

Juntos sairemos de Girona e vamos diretamente para Avignon, na França, cidade conhecida e muito narrada nos romances medievais, onde comeremos em um restaurante bem típico: o “Brunel”, indicado pela guia Michelin (http://www.restaurantbrunel.fr ) por sua comida provençal. Depois dessa ótima experiência gastronômica, seguiremos para Turin, na Itália, onde passaremos a noite, e no dia 12 tiraremos a manhã para conhecer a Catedral de San Juan Bautista, onde está guardado o Santo Sudário. Seguiremos em direção a Florença, parando em Parma, famosa pelo seu presunto, e em Modena, também famosa pelo seu vinagre.

No dia 15 seguiremos até Roma e nessa fantástica cidade que ainda não conheço pessoalmente ficaremos três dias para tentar sorver o bastante de tudo o que ela tem a oferecer. Nesse ponto começamos o trajeto de volta e aproveitaremos esses dois dias de retorno para conhecer Pisa, Gênova, Nice e por último Marselha antes de chegar ao nosso destino final.

Veja o roteiro!

(clique para ampliar)

Expectativas a mil e malas prontas, vamos mergulhar juntos nesta viagem de descobertas e imprevistos que, com a companhia de vocês, será inesquecível!

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